Preocupando-se com o Mundo enquanto Batemos Ponto

Quando pensamos nas tragédias que afligem o mundo — fome, guerras, desigualdade, mudanças climáticas — é fácil nos sentirmos sobrecarregados. Como transformar a realidade se ainda precisamos entregar relatórios no trabalho e estudar para as provas? Não tenho uma resposta definitiva, mas, com o tempo, percebi alguns padrões de comportamento que ajudam a agir em prol das nossas causas sem nos esgotar por completo.

Primeiro, é importante lembrar que existem profissionais dedicados a essas causas. E isso não só é totalmente normal, como é essencial para qualquer movimento. Se você não é um deles, não espere ter o mesmo nível de atuação que um ativista profissional. Não há culpa nenhuma nisso. Se você tem vontade de se engajar tanto quanto eles, ótimo — talvez até valha pensar numa mudança de carreira! Mas, se isso não faz sentido pra você, tudo bem também: todo movimento precisa de gente “comum” pra acontecer.

Aliás, o seu sucesso é importante para a causa. É fácil sentir culpa por investir tempo e energia no próprio crescimento, mas a verdade é que você tem todo o direito de buscar uma boa carreira, estudar, cuidar da saúde e ter seus hobbies. Mais do que isso: o seu sucesso ajuda. É ele que permite fazer doações e influenciar colegas de trabalho, familiares e amigos. Além disso, cada pessoa que se sustenta sozinha libera recursos para quem ainda precisa. E vale lembrar: muitas vezes, seus adversários têm dinheiro, influência e contatos. Então, por que não trazer isso para o seu movimento? O mundo precisa de pessoas éticas e idealistas que saibam fazer negócios.

Uma vez que você tenha colocado sua própria máscara de oxigênio, faça algo concreto. Voluntariado é algo maravilhoso: se possível, faça, mas nem sempre é viável. Uma outra forma de atuação mais prática é, frequentemente, fazer doações periódicas. De uma forma ou de outra, atividades concretas ajudam nossas causas e também aliviam nossa consciência.

Mas atenção: muitas vezes deixamos de fazer a diferença nos momentos que realmente importam. Falo por experiência própria: quantas vezes eu ter defendido uma causa, feito uma doação, dado uma esmola, intervindo em um conflito ou até chamando os bombeiros, e não o fiz! Para não perder essas oportunidades, é importante se preparar mentalmente para agir. Não deixe a decisão para o momento. Por exemplo, você pode sempre andar com algum trocado caso alguém peça ajuda, ou imaginar como agiria diante de uma emergência médica na rua. Somos educados para não agir: sentimos vergonha, não sabemos o que fazer e, muitas vezes, ficamos paralisados. É preciso combater esse condicionamento de forma consciente.

Em especial, manifeste-se na sua convivência diária. Se não conseguimos fazer nossos familiares e amigos refletirem, como vamos defender nossa causa com desconhecidos? Sei que é mais difícil falar sobre certos movimentos pessoalmente — nos sentimos constrangidos, e as oportunidades de dialogar construtivamente são raras. Se falarmos o tempo todo, as pessoas vão simplesmente nos ignorar, e precisamos construir uma conexão e ser efetivos ao falar. (Comunicação não-violenta ajuda muito com isso.) Mesmo assim, é difícil imaginar que vamos influenciar um público maior se não conseguimos começar com as pessoas mais próximas.

Por outro lado, o ativismo online importa. Muitas pessoas desvalorizam essas manifestações, chamando de “ativismo de sofá”. Eu também já pensei assim, mas não é verdade. Cada vez que você se posiciona, encontra aliados e ajuda a aumentar a consciência coletiva. Quantas pessoas se sentem sozinhas em seu desespero até encontrarem uma comunidade online de aliados? Claro que ações maiores são importantes, mas não acredite em quem desmerece o que você faz. Recentemente, vimos diversos grupos gastando milhões para contrabalançar a atuação online de movimentos sociais. Se isso fosse ineficaz, por que fariam?

Sendo ainda mais geral, desconfie das críticas dos seus oponentes. Se alguém que trabalha contra a sua causa diz que sua atuação é ineficaz ou contraproducente, por que você daria crédito imediato? Pode até haver algum fundo de verdade, mas não aceite a opinião sem refletir. Por outro lado, se pessoas do seu próprio movimento criticam sua atuação, preste atenção especial. Pode não ser necessariamente verdade, mas como vocês estão do mesmo lado, vale a pena ouvir e considerar as discordâncias.

Essas discordâncias são uma das muitas boas razões para valorizar as diferenças dentro do movimento. Toda causa precisa de diversidade de opiniões, temperamentos e estratégias. Por isso, aprenda não só a aceitar, mas também a apreciar companheiros ativistas que atuem de maneira diferente da sua. Na verdade, se você não se sente um pouco desconfortável com nenhum aliado, é bem provável que esteja deixando de lado apoios importantes. Claro que existem limites, mas ainda assim, valorize as pessoas que te tiram da zona de conforto.

Para mim, valorizar a diversidade é apenas uma expressão de um princípio ainda mais amplo: quando atuamos por uma causa, não somos nada e a causa é tudo. Mesmo que cada pequena ação seja importante, quem não dedica a carreira à causa precisa ter consciência de suas limitações. Por isso, considero fundamental evitar impor nossas opiniões ou ficar constantemente tentando “corrigir” os outros. Se todos tentarem ditar como agir, o movimento se dispersa. Se uma liderança tomar decisões que você desaprova, procure outro grupo! Como vimos antes, sempre haverá diferentes grupos com valores e estratégias diversas, que agirão de forma coordenada na hora certa. De qualquer forma, esse é um tópico que vale uma análise só sua.

No fim das contas, cuidar de si mesmo não é egoísmo: é estar pronto para agir quando o mundo precisar. Cada palavra, cada gesto, por menor que pareça, conta. Sua voz importa, suas ações fazem diferença, e o impacto que você tem vai muito além do que você imagina — se você tiver o autocuidado e a humildade necessária.

Uma apreciação sincera de fitas de vídeo

A partir dos anos 2000, a estética do VHS foi resgatada para evocar angústia. Filmes como The Blair Witch Project associaram sua imagem granulada a registros fictícios de eventos traumáticos. Em outros casos, o efeito era de voyeurismo: vislumbres de vidas privadas, momentos íntimos que não nos pertencem. Eram fitas familiares, mas de famílias que não reconhecíamos.

O vaporwave subverteu essa carga emocional. A imagem em VHS, antes sinônimo de medo ou invasão, passou a retratar espaços vazios e melancólicos — corredores de shoppings, salões iluminados, escadas rolantes em silêncio. Lugares estranhamente conhecidos. A tensão ainda existe, mas não há ameaça. Em vez disso, emerge uma nostalgia suave. Nossos pais estavam ali. Nós também.

O que começou como um movimento estético irônico acabou reativando uma sensação adormecida: o encantamento infantil diante do novo. Como entrar num shopping pela primeira vez e achar tudo imenso, misterioso, cheio de possibilidades. Uma emoção que pensávamos perdida, reencontrada por entre faixas de fita magnética e ruídos analógicos.

Se eu tenho de morrer

Se eu tenho de morrer,
você deve viver
para contar minha história
para vender minhas coisas
para comprar um pedaço de pano
e alguns barbantes,
(que sejam brancos com uma longa rabiola)
de modo que uma criança, em algum lugar de Gaza
enquanto olhando o céu nos olhos
esperando seu pai que partiu em uma labareda —
e não disse adeus para ninguém
nem mesmo para sua carne
nem mesmo para si mesmo —
veja a pipa, minha pipa que você fez, voando lá encima,
e pense por um momento que um anjo está aqui
trazendo de volta amor.
Se eu devo morrer
faça que isto traga esperança,
faça isso ser uma história.

Um menino soltando uma pipa, fotografado de baixo para cima, de modo que vemos o céu azul de Gaza com várias outras pipas, todas vermelhas e brancas com escrita árabe no meio.
Fonte: The Guardian

(Tradução de If I Must Die, do poeta e professor palestino Rafaat Alareer, assassinado em 6 de dezembro de 2023 junto com seu irmão, irmã e suas crianças. A leitura por Brian Cox (ator de Sucession, por exemplo) é especialmente bonita. Aqui há uma tradução mais oficial, caso tenha interesse.)

Coma sua Felicidade

Adam Ragusea é um dos meus youtubers favoritos. Ex-professor universitário de jornalismo, ele começou a fazer vídeos sobre comida, para aprender mais sobre essa então nova mídia. Deu certo. Hoje, ele ganha consideravelmente bem, e até largou a universidade, tornando-se relativamente famoso. Só não está feliz:

Ouvindo a este episódio, me identifiquei muito com ele. Também sou alguém satisfeito com minha situação atual, seja financeira, familiar ou cultural. Ainda assim, por mais que tudo esteja aparentemente bem, muitas vezes me pego infeliz. Foi aí que descobri algo importante:

A gente precisa decidir ser feliz.

Não me entenda mal: estabilidade financeira, vida familiar bem-sucedida, sucesso profissional, entre outros, são fatores importantes, diria até necessários, para a felicidade. No entanto, necessidade não é o mesmo que suficiência. A felicidade é um ato em si. É como se fôssemos pessoas trabalhadoras e famintas que, embora tenhamos acesso à comida, nunca paramos para comer.

A comparação pode parecer boba. Se ser feliz fosse tão simples quanto se alimentar, todos seriam felizes, não? É porque esquecemos que até comer é algo complexo. Levamos uns bons anos aprendendo isso, com a ajuda de nossos cuidadores. Cuidadores, inclusive, que provavelmente nos ensinaram o caminho para o sucesso objetivo. Só que quantos nos ensinaram a nos sentir bem? Quantos eram, eles mesmos, felizes?!

Hoje, quando me sinto infeliz, procuro resolver o que é necessário. Pode ser fome, sono ou estar desidratado. Em outras ocasiões, ferramentas como diários de gratidão, meditação guiada, etc., também me ajudaram muito. Mas em um número surpreendentemente grande de vezes, eu simplesmente precisei decidir que está tudo bem e que posso ser feliz, aproveitando o momento.

Não sou feliz o tempo todo. Neste exato momento em que escrevo isso, não estou no meu melhor. No entanto, sei que é possível ser feliz. É verdade que, às vezes, é difícil de fazer ou até mesmo impossível de explicar, mas o ato de pensar explicitamente em ser feliz tem me ajudado significativamente.

Guangdong

Ermell / CC BY-SA (de Wikimedia Commons)

Me deu vontade de conhecer Guangdong.
Guangdong! De todos os lugares, Guangdong!
Já pensou? Vou a Shenzhen,
passeio com o mais belo livro de eletrônicos na cidade
e vou à Cidade dos Livros.

Não quero Cantão, oriental, misteriosa, imagina!
Ir a Guangzhou, com seus milhões
de pobres desgraçados trabalhando
como loucos, decididos e grandiosos,
os prédios espelhados
e as ruas! Sinceramente,
nem sei como são as ruas.
Guangdong!

Por que ir a Guangdong,
se é mais fácil vir de lá?
Quantas coisas aqui
que vieram de lá?
Por que elas querem
que eu vá lá,
que eu monte um robô de brinquedo
com minhas mãos
e faça existir milhões de coisas?
Guangdong!

E suas similares também!
Mas, por alguma razão,
primeiramente Guangdong.
Por que iria?
Por que a teia que vai a Singapura
e cruza o Canal do Panamá
iria tanto querer me levar?
Cantão!

Mas seria bom, não seria?
Talvez deva ser assim,
talvez eu deva ser levado,
eu, que como seus biscoitos de óleo e areia,
que vivo de criar gênios
para suas lâmpadas,
talvez deva ser assim,
eu, e você, sim, você também,
iríamos, já pensou?

Além da comida surpreendente
e das bebidas violentas,
além das fotos, esqueça isso!
Iríamos
(eu certamente iria)
iria, não sei por quê,
não sei
mas algo me diz
que eu saberia, lá.

By YEUalichangpsia – Own work, CC BY-SA 4.0 (de Wikimedia Commons)

O dia em que se declarou a Guerra da Previdência

A aprovação da reforma da Previdência despertou um turbilhão emocional em mim. Resolvi então desabafar em uma thread no Twitter, e me pediram em em forma de texto. Sei que há bots que fazem isso, mas nada melhor que postar no blog! Down with the internet siloes, afinal.

Enfim, sou explicitamente à favor da reforma por dois motivos: para a Previdência ser mais justa e mais sustentável. Na minha opinião ignorante, esta reforma cumpre os dois propósitos mais ou menos bem. Logo, acho bom que seja aprovada.

Contudo, quando vi as comemorações de alguns outros pró-reforma, fiquei bem incomodado. Vi gente (que aliás respeito e acompanho) caçoando de quem era contra, mas mesmo quem se portou melhor comemorava ter vencido esta “batalha” e, em breve, a “guerra.” Veja, eu concordo com essas pessoas, mas isso me caiu mal para caramba. Nem sabia por quê!

Refleti e acho que posso explicar assim. Os defensores da reforma batalharam muito por uma mudança fundamental ao país. Conseguiram, de fato, uma vitória enorme. Sua comemoração me lembrou aquelas fotos americanas do fim da Segunda Guerra, pessoas dançando nas ruas.

Fonte: History Daily

Só que a reforma não é o fim de uma guerra – pelo contrário, é o começo. O que ocorreu sexta não foi o 8 de maio de 1945, quando soldados voltavam para casa. Foi o 11 de dezembro de 1941, quando o Congresso americano resolveu mandá-los à guerra.

Por quê? Porque o trabalhador vai ter de trabalhar mais. Quem vai à guerra é o trabalhador, ou melhor, vai ficar mais alguns anos lá.

Note que eu não acho isso errado. Eu já sabia que isso ia acontecer: igualar os regimes trará alguma justiça, mas a sustentabilidade só virá se praticamente todos pagarem mais. Só que, quando começaram a comemorar e, especialmente, a caçoar… foi como se os congressistas americanos fizessem um baile de máscaras enquanto os soldados embarcassem para a Europa.

Um exemplo concreto de como vejo. Comentou-se muito como a maioria dos mais pobres (digamos, pedreiros), já se aposentam por idade. Logo, a nova regra não mudaria nada para essa maioria. Isto é excelente! Mas alguns certamente se aposentam antes, por contribuição. Sexta, foi dito a estes: “Isto não é mais possível: você vai ter de carregar tijolo até os 65 anos, amigão. Você foi contra? Então com licença, que agora vou rir do seu terraplanismo previdenciário.”

(Na verdade, há alternativas. Previdência complementar, por exemplo. Mas isso está distante da realidade da maioria, é caro e demanda muito conhecimento. E com o aumento da demanda, a quantidade de produtos bosta dos bancos vai crescer também.)

Note que entendo completamente a comemoração! Muitos destes são profissionais muito estudados, que viram o óbvio, lutaram por anos pelo que é melhor (por doloroso que seja) e estão vencendo. Há trabalhos de uma vida nessa aprovação.

Ainda assim, até a esses vale pedir bom senso. Até porque, na prática, duvido que a maioria dos economistas liberais sejam realmente afetados pela reforma: são profissionais super-especializadas com salários enormes cujo desempenho cresce com a idade. Ao chegar aos 65, provavelmente sequer vão se aposentar de fato. Os ganhos e as oportunidades são tão grandes (como professores universitários, autores, políticos) que vale a pena continuar trabalhando.

Nada contra isso, alias. E novamente, eles estão certos no que defendem. Contudo, ainda assim estão tão distantes da realidade da maioria que não conseguem respeitar quem vai contra essa mudança. Acrescentar mais cinco anos de trabalho a um professor de crianças não é o mesmo que fazer um burocrata trabalhar mais cinco anos.

E aqui faço um desvio para falar do liberalismo em geral: além de perverso, a falta de sobriedade pode ter um preço caríssimo.

Olhem as hordas pedindo pelo fim do mundo globalizado, da democracia liberal. Como essas pessoas ficaram assim? Bem possivelmente, viram burocratas bem remunerados tomando decisões (corretas!) que lhes doíam. Com sorte, a única empatia que recebiam era um lip service de “entendo que é duro, mas…” Na maioria das vezes, quem discorda recebe um gráfico complicado e uma tabela cheia de siglas na cara. Se nesse supertrunfo não tiver uma carta maior, deve se calar; se tiver, vai ganhar um “é, pode ser” como resposta.

Isso é terrível! O liberalismo comemora uma vitória (em aliança com um presidente que venera torturador e indica filho a embaixada!) como se uma onda acachapante de desejo de liberdade econômica tivesse varrido o país. Não foi isso. É desesperança: o povo aceita sacrifícios por desespero. E não tem outro caminho: não vai dar para pagar, é preciso cortar! O Brasil entendeu isso como nunca antes. Só que se não houver respeito pelo sacrifício alheio, nós, que nunca o sofreremos o grosso desse sacrifício, nós seremos os primeiros bodes expiatórios quando a autocracia se consolidar.

Como sempre, a chance de eu estar falando abobrinhas é muito grande… mas não acho que esteja sozinho desta vez. Lembram-se do manifesto de The Economist nos seus 175 anos? Em um trecho, diz-se isso:

Yet ruling liberals have often sheltered themselves from the gales of creative destruction. Cushy professions such as law are protected by fatuous regulations. University professors enjoy tenure even as they preach the virtues of the open society. Financiers were spared the worst of the financial crisis when their employers were bailed out with taxpayers’ money.

A manifesto for renewing liberalism

Alguém negaria que parece descrever justamente muitos de nós, defensores da Nova Previdência?

Então, mesmo sendo um zé-ruela qualquer da Internet, faço esse convite geral aos pró-reforma: sejamos sóbrios. Por empatia, e também por cálculo.

Eleição é dorgas

Passei quase quatro anos limpo. Infelizmente, nesse último fim de semana, dei uma baforada no cachimbo eleitoral, e tive uma recaída. Sou cracudo da política de novo.


Só para constar, meu candidato presidencial é Ciro Gomes.

É um político experiente e sagaz, não foi denunciado por nada e tem uma habilidade notável de fazer previsões. Alias, também está muito alinhado com meus valores. Eu tinha umas poucas reservas, cogitava votar em Marina também… Mas se já achava ele interessante no começo, agora é de longe a melhor chance para o país.


Mas nem é disso que quero falar. Na verdade, eu queria fazer uma pergunta.

Em quem vocês estão votando para distrital? E federal? Já tenho escolhas mas, como passei muito tempo fora, posso estar perdendo candidatos interessantes. O que vocês sugeririam?

Voltando a Brasília

Voltamos a morar no Distrito Federal. Que aventura!

Nos quase cinco anos que passamos fora, minha família e eu aprendemos muito. Conviver com uma cultura tão diferente nos ensinou muito. Agora, o desafio está sendo adaptar-se de volta!

Ainda assim, estamos felizes. Estar perto da família compensa toda a trabalheira. Para mim, em especial, está sendo uma experiência curiosa morar novamente na comunidade onde cresci.

Quanto a viver em Recife, foi uma experiência maravilhosa. Meus amigos recifenses em Brasília me alertaram para uma cidade miserável, suja e violenta, uma Gotham City nordestina. Felizmente, a experiência não foi assim. Os recifenses nos receberam de braços abertos, conhecemos uma cultura incrível e nos acostumamos ao caos e benefícios de uma cidade grande.

É verdade que, se a violência reduziu-se muito (e depois cresceu de novo), a miséria ainda é dramática. Mas mesmo isto nos ensinou algo: Recife é bem menos segregada que as cidades que conheci, e um senso de comunidade permeia a todos, o que alivia parte dos problemas. Ademais, a cada dia um problema é resolvido, um drama solucionando. A Recife de hoje é certamente bem melhor que a de uma década atrás.

Enfim, sentimos falta deste povo que nos adotou de coração e desta cidade que nos ensinou tanto. Ainda assim, ah, é muito bom estar de volta.

A escola e a casa

Recebo muitos memes sobre como “escola ensina português, educação se aprende em casa. ” Então eu lembro deste artigo – e especialmente desta parte:

In Latino culture, she said, “the school is seen as being in charge of teaching children their letters and all that, while parents are in charge of discipline—making sure they listen and they’re good and they sit still. Parents don’t tend, overall, to give children a lot of choices and options. It’s kind of like ‘I rule the roost so that you can behave and learn at school.’ ” The Providence Talks approach “is a little more like ‘No, your child and what they have to say is really important.’ And having them feel really good about themselves as opposed to passive about their learning is important, because that’s what’s going to help them succeed in this culture.”

Aquela separação não é um valor universal, portanto.

Aliás, essa distinção sempre me me pareceu prejudicial. The Talking Cure explora bem como o apoio doméstico ajuda na escola. O outro lado também é importante: é útil, e é possível, ensinar temas aplicáveis, como práticas de estudo, concentração e etiqueta. Para muitas crianças desamparadas, isso mudaria suas vidas. Para muitas outras, isto já muda.

Isto não é possível, porém, com os métodos tradicionais de ensino. Se estes já falhavam com as matérias tradicionais, são inúteis para esses temas. Isto, junto ao nosso “princípio da segregação educacional”, nos impede de fazer um investimento tão simples, mas tão rentável, nos nossos filhos mais vulneráveis.

Eu realmente gostaria de ver nossa cultura mudada neste aspecto.

 

Três pontos sobre as eleições

Acredito que Aécio seria um presidente melhor, mas as urnas foram claras. Parabéns a Dilma e seus eleitores.

A melhor notícia foi o ótimo desempenho do PSDB. A campanha de Aécio foi excelente, as propostas ótimas. Aécio mostrou-se muito melhor que as alternativas anteriores e afastou-se dos que pregavam ódio. É dessa oposição que precisamos.

O sufoco do PT foi um aviso. O povo confia em Dilma, mas está muito descontente.Se Dilma ouvir o recado mandado via o sufoco, poderá fazer um governo melhor agora. Que assim seja.