{"id":1136,"date":"2013-04-11T19:00:11","date_gmt":"2013-04-11T22:00:11","guid":{"rendered":"http:\/\/suspensao.blog.br\/juizo\/?p=1136"},"modified":"2015-06-15T12:45:20","modified_gmt":"2015-06-15T15:45:20","slug":"sobre-marco-feliciano-e-a-maldicao-sobre-a-africa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/suspensao.blog.br\/juizo\/sobre-marco-feliciano-e-a-maldicao-sobre-a-africa\/","title":{"rendered":"Sobre Marco Feliciano e a &#8220;maldi\u00e7\u00e3o sobre a \u00c1frica&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Com raz\u00e3o, os coment\u00e1rios do deputado Marco Feliciano sobre &#8220;africanos&#8221; t\u00eam gerado grande revolta. Ainda assim, muitas pessoas t\u00eam se perguntado: como \u00e9 poss\u00edvel que um homem claramente descendente de <em>negros<\/em> fa\u00e7a coment\u00e1rios <em>racistas<\/em>? A resposta mais comum t\u00eam sido que ele nega sua ascend\u00eancia &#8211; o que seria facilmente percept\u00edvel por sua peculiar escovinha, parte de um suposto <em>passing<\/em>. Entretanto, h\u00e1 uma resposta mais precisa e interessante. Poucos a cogitaram porque demanda compreender um pouco mais como funciona a ideologia pentecostal, ent\u00e3o tentarei apresent\u00e1-la.<\/p>\n<p>Quando se fala do <em>racismo<\/em> de Marco Feliciano, geralmente o interlocutor est\u00e1 pensando em termos bem diferentes dos do deputado. O racismo que se imagina \u00e9 mais semelhante ao preconceito expl\u00edcito do Sul dos Estados Unidos h\u00e1 algumas d\u00e9cadas &#8211; n\u00e3o por acaso,\u00a0 o que aparenta ser o modelo-padr\u00e3o para estudo acad\u00eamico sobre racismo. Nesta ideia, a diferen\u00e7a entre as ra\u00e7as \u00e9 <em>essencial<\/em>: a pessoa negra foi <em>feita<\/em> diferente, com v\u00e1rios atributos inescap\u00e1veis (geralmente, negativos) e isso n\u00e3o pode ser mudado.<\/p>\n<p>A ideia do deputado Feliciano &#8211; e, por extens\u00e3o, de muitos pentecostais &#8211; \u00e9 sutil mas marcantemente diferente. A &#8220;maldi\u00e7\u00e3o sobre a \u00c1frica&#8221; n\u00e3o \u00e9 uma propriedade essencial dos &#8220;africanos&#8221;. Antes, \u00e9 mais uma consequ\u00eancia contingente de um ato de algu\u00e9m no passado remoto. Na pr\u00e1tica, \u00e9 um detalhe facilmente alter\u00e1vel. E como se altera? Pela convers\u00e3o, pois &#8220;nenhuma condena\u00e7\u00e3o h\u00e1 para os que est\u00e3o em Cristo Jesus&#8221;. Isto vale n\u00e3o s\u00f3 para os &#8220;africanos&#8221;, mas para qualquer pessoa sobre quem incida uma &#8220;maldi\u00e7\u00e3o&#8221;, ali\u00e1s. &#8220;Maldi\u00e7\u00f5es&#8221; tornam-se apenas detalhes pontuais, t\u00e3o f\u00e1ceis de se remover quanto uma verruga no dedo. Na verdade, todos estar\u00edamos sob uma maldi\u00e7\u00e3o muito mais grave, oriunda do pecado original &#8211; mas tamb\u00e9m t\u00e3o facilmente resolv\u00edvel quanto qualquer outra.<\/p>\n<p>Entretanto, que diferen\u00e7a isso faz? \u00c9 uma afirma\u00e7\u00e3o t\u00e3o ignorante e racista quanto a anterior, poder-se-ia dizer.<\/p>\n<p>Pois bem, se seu par\u00e2metro de avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 a ignor\u00e2ncia, ent\u00e3o realmente n\u00e3o faz muita diferen\u00e7a. A posi\u00e7\u00e3o do Feliciano \u00e9, talvez, at\u00e9 mais desinformada que o racismo racialista dos confederados. Do mesmo modo, esta \u00e9 certamente uma posi\u00e7\u00e3o racista &#8211; uma conclus\u00e3o pouco interessante, por\u00e9m, dada a amplitude quase amorfa que o termo &#8220;racismo&#8221; adquiriu.<\/p>\n<p>O interessante est\u00e1 nas <em>consequ\u00eancias<\/em> da ideologia destes pentecostais. Se estas ideias sobre maldi\u00e7\u00e3o demandam algum comportamento diferente, \u00e9 o ato de <em>priorizar a ajuda<\/em> aos &#8220;africanos&#8221; &#8211; e, consequentemente, um grande subconjunto dos negros &#8211; porque eles precisariam muito mais de ajuda. N\u00e3o que isto ocorra &#8211; acredito que n\u00e3o exista <em>profiling<\/em> racial significativo na evangeliza\u00e7\u00e3o pentecostal, nem contra nem a favor de pessoas negras &#8211; mas seria a \u00fanica conclus\u00e3o poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, esta &#8220;teoria da maldi\u00e7\u00e3o&#8221; fornece um ferramental para explicar alguns fatos sobre a situa\u00e7\u00e3o do negro da sociedade sem p\u00f4r o peso por esses fatos na pessoa negra. Pode at\u00e9 ser que a maior parte da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria seja negra, ou que a \u00c1frica subsaariana seja uma regi\u00e3o cheia de problemas, mas isto \u00e9 consequ\u00eancia da &#8220;maldi\u00e7\u00e3o&#8221;, n\u00e3o da <em>ess\u00eancia<\/em> do &#8220;africano&#8221;, que pode e deve ser ajudado por seus irm\u00e3os pentecostais tanto quanto qualquer outro &#8220;povo&#8221;.<\/p>\n<p>Assim, fica claro por que Marco Feliciano n\u00e3o v\u00ea contradi\u00e7\u00e3o entre ter cabelo crespo e falar sobre a &#8220;maldi\u00e7\u00e3o sobre a \u00c1frica&#8221;. Outras reflex\u00f5es s\u00e3o poss\u00edveis sobre o tema, mas n\u00e3o faz sentido <a href=\"https:\/\/twitter.com\/msantoro1978\/status\/312341395866263552\">tentar faz\u00ea-las<\/a> sem levar em conta o que o pastor quis dizer nem compensa p\u00f4r\u00a0 palavras em sua boca, como se ele j\u00e1 n\u00e3o houvesse emitido asneiras o suficiente.<\/p>\n<p>Compartilha-se uma foto de Feliciano com sua m\u00e3e e seu padrasto, que \u00e9 negro, frequentemente seguida por coment\u00e1rios sobre o &#8220;conflito familiar&#8221;. Afora a maior omiss\u00e3o destes coment\u00e1rios &#8211;\u00a0a <em>satisfa\u00e7\u00e3o<\/em> do padrasto, tornado mero objeto do discurso, perto do enteado &#8211; percebe-se claramente que o deputado n\u00e3o demonstra \u00f3dio algum a ele (e a sua m\u00e3e) mas antes parece bastante afetuoso. Como pode, um homem que <em>odeia<\/em><em> negros<\/em>, agir assim? Pode-se fazer uma longa lista de argumentos intricados, mas acredito que o que escrevi acima pode dar uma luz mais convincente a este comportamento.<\/p>\n<p>Qualquer dia, v\u00e1 a uma igreja pentecostal, preferencialmente em uma regi\u00e3o mais pobre ou perif\u00e9rica. Note como h\u00e1 muitas pessoas negras participando alegra e vivamente do culto. Haver\u00e1 v\u00e1rios sacerdotes negros guiando o culto. Eu fui evang\u00e9lico at\u00e9 os doze anos, e uns tr\u00eas quartos da lideran\u00e7a da igreja que eu frequentava era inequivocamente negra. Tenho parentes que v\u00e3o l\u00e1 e, por isso, eventualmente, passo pela igreja &#8211; se algo mudou, \u00e9 que h\u00e1 ainda mais pessoas de pele ainda mais escura em posi\u00e7\u00f5es ainda mais altas.<\/p>\n<p>A curiosa verdade \u00e9 que h\u00e1 poucos lugares no Brasil t\u00e3o cegos \u00e0 cor da pele, t\u00e3o\u00a0abertos \u00e0 pessoa negra, quanto uma igreja pentecostal. N\u00e3o que n\u00e3o haja racismo na <em>pessoa<\/em> pentecostal &#8211; por definirmos o racismo como algo que impregna <em>tudo<\/em>, inexoravelmente, encontraremos atitudes racistas, especialmente fora do c\u00edrculo da igreja. Entretanto, se a ideologia pentecostal, com toda sua ignor\u00e2ncia e fundamentalismo, tem alguma influ\u00eancia nos relacionamentos raciais de seus fi\u00e9is, \u00e9 para <em>reduzir<\/em> o preconceito e abrir portas na hierarquia clerical.<\/p>\n<p>N\u00e3o estou propondo que paremos de criticar Feliciano e seus seguidores. De maneira alguma! Sua cren\u00e7a ainda \u00e9 ignorante no final das contas, e suas posi\u00e7\u00f5es sobre homossexualismo s\u00e3o bem menos benignas. Acredito que a <em>maneira<\/em> como resolveram se opor a Feliciano \u00e9 inadequada e at\u00e9 perigosa, mas se opor a ele \u00e9 uma necessidade.<\/p>\n<p>Meu ponto \u00e9 outro: h\u00e1 <em>uma<\/em> cr\u00edtica que \u00e9, no m\u00ednimo, ignorante e, no m\u00e1ximo, injusta. \u00c9 compreens\u00edvel que a fa\u00e7am, posto que poucos da <em>intelligentsia<\/em> conhecem como uma igreja pentecostal pensa e funciona. Ademais, a reflex\u00e3o sobre o racismo entre alguns de n\u00f3s \u00e9 pouco sutil, at\u00e9 viciada, e nos acostumamos a respostas impulsivas, autom\u00e1ticas. Por mais que Marco Feliciano, n\u00e3o s\u00f3 na CDH, mas at\u00e9 como deputado, seja um erro, gostaria que n\u00f3s incid\u00edssemos em menos erros ao critic\u00e1-lo. No m\u00ednimo, por honestidade intelectual, mas tamb\u00e9m porque h\u00e1 milh\u00f5es de fi\u00e9is com quem temos de conversar, mas que n\u00e3o debater\u00e3o conosco se distorcermos suas cren\u00e7as.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com raz\u00e3o, os coment\u00e1rios do deputado Marco Feliciano sobre &#8220;africanos&#8221; t\u00eam gerado grande revolta. Ainda assim, muitas pessoas t\u00eam se perguntado: como \u00e9 poss\u00edvel que um homem claramente descendente de negros fa\u00e7a coment\u00e1rios racistas? 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