Por que as taxas bancárias não são tão ruins quanto pintam

É bom ter uma conta no Facebook: permite-me manter contato com um monte de gente distante, facilita reencontros e ajuda a montar listas de convidados. Por outro lado, a quantidade de coisa irrefletida e tolamente lamuriante que compartilham é bem desagradável. Considere, por exemplo, este texto:

Senhores Diretores do Banco Itaú,
Gostaria de saber se os senhores aceitariam pagar uma taxa, uma pequena taxa mensal, pela existência da padaria na esquina de sua rua, ou pela existência do posto de gasolina ou da farmácia ou da feira, ou de qualquer outro desses serviços indispensáveis ao nosso dia-a-dia.
[...]
Pois, ontem saí de seu Banco com a certeza que os senhores concordariam com tais taxas. Por uma questão de equidade e de honestidade.
Minha certeza deriva de um raciocínio simples. Vamos imaginar a seguinte cena: eu vou à padaria para comprar um pãozinho. O padeiro me atende muito gentilmente. Vende o pãozinho. Cobra o embrulhar do pão, assim como, todo e qualquer serviço..
Além disso, me impõe taxas. Uma “taxa de acesso ao pãozinho”, outra “taxa por guardar pão quentinho” e ainda uma “taxa de abertura da padaria”. Tudo com muita cordialidade e muito profissionalismo, claro.

A princípio, o leitor pode se sentir lesado. Entretanto, note que existem, sim, “taxa de abrir padaria”, “taxa de guardar pão quentinho” etc. etc. porque tudo isso tem custo. Só que todas essas “taxas” já estão incluídas no preço do pãozinho. O banco só discrimina uma série de gastos (o que é uma coisa excelente). Pode-se até discutir se as taxas são altas demais, mas reclamar que existam é como reclamar que tenha sido cobrado o preço da mão-de-obra do atendente da panificadora. Mais importante ainda, você pode escapar de praticamente todas essas taxas usando uma conta eletrônica.

Estas contas (também conhecidas como contas digitais) não exigem o pagamento de nenhuma taxa (exceto, talvez, uma taxa de abertura). Se operadas apenas por meio digital (internet, celular, caixa eletrônico), não levam a cobrança nenhuma por parte do banco. (Por outro lado, cheques, caixas convencionais e outros serviços não virtuais resultam em cobranças; como estes são serviços realmente custosos e raramente necessários para vários perfis de clientes, a cobrança parece mais justa.) Até onde sei, ao menos Banco do Brasil e Itaú (justamente o banco criticado no Facebook) fornecem este serviço.

Sei que a crença de que fomos enganados é agridoce: causa-nos revolta, mas ao menos sabemos quem é o culpado por “tudo isto que está aí”. Entretanto, este sentimento é problemático por duas razões. Primeiro, passamos a acreditar que somos injustiçados quando não somos. Eu mesmo conheço uma penca de bem-nascidos xingando muito no Facebook o “sistema” enquanto propõem dar sumiço em sem-teto e “fazer justiça com as próprias mãos”. Além disto, julgamos que somos, em cada vez mais situações, vítimas, e saímos procurando culpados por problemas que, não raro, são resultado de nossas próprias falhas. Assim, focamos em encontrar os culpados no lugar de resolver nossos problemas. Se votou em um político de mau desempenho, a culpa é da mídia que o “manipulou”. Se paga 300% ao ano de juros, a culpa é do banco, não da pessoa que escolheu usar o cheque especial.

Esta reclamação sobre os bancos (por mais criticáveis que bancos sejam, nas mais diversas situações) é um exemplo excelente desta perspectiva de vida: o autor reclama das taxas que seriam cobradas de qualquer forma. No final das contas, pede não para pagar menos, mas para que as cobranças sejam embutidas em algum outro valor. Se ao invés de postar uma reclamação vazia tivesse refletido, talvez encontrasse soluções (como as contas digitais) e teria feito um post muito superior. O Facebook, então, teria ainda mais uma utilidade além de servir de agenda: transmitiria informação útil e com poder de causar mudanças.

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2 Comments

  1. André Luis Ferreira da Silva Bacci
    Posted 03/04/2012 at 21:45 | Permalink

    Quando eu crescer, quero conseguir escrever textos tão claros e diretos ao ponto como esse.

    De verdade.

    Lembra de cara (e não só pelo assunto) o pessoal do Freakonomics.

  2. Posted 04/04/2012 at 01:13 | Permalink

    Opa, obrigado! Acho que estou escrevendo melhor, mesmo, tenho praticados mais. É para isto mesmo que tenho o blog, afinal :)

    Quanto à semelhança… Nunca li Freakonomics, mas posso imaginar algumas razões para parecer com eles: ultimamente estou lendo muito, mas muito artigo recomendado no http://aldaily.com e acho que estou pegando o estilo deles :) mesmo sem ler, aposto que Freakonomics segue bem este estilo “jornalista high brow” de escrever. Enfim, só um chute.

    De resto, obrigado pelo comentário e marquemos um sushi :D

    Até!

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