Alguns problemas em uma coluna de Drauzio Varella

Admiro o Drauzio Varella. Sua habilidade de falar ao público amplo às vezes atrai antipatia, mas eu a julgo notável e muito bem aplicada em causas importantes. Ainda assim, na sua coluna na Folha do dia 7 de setembro não pude deixar de perceber algumas afirmações dúbias. Por exemplo, ele afirma que o programa Mais Médicos é uma resposta improvisada aos protestos de junho:

Talvez por falta do que propor nas duas primeiras áreas [transporte público e educação], decidiu atacar a da saúde. A população se queixa da falta de assistência médica? Vamos contratar médicos estrangeiros, foi o melhor que conseguiram arquitetar.

Isto, porém, não pode ser verdade, porque o anúncio do programa foi feito ainda em maio. O Mais Médicos, por sinal, seria uma péssima resposta eleitoreira, pois focaria no público-alvo errado. Os manifestantes eram jovens urbanos, preocupados com os problemas da saúde em sua cidade, mas o programa atende populações remotas cujos problemas raramente aparecem nos jornais. Ademais, o programa já era polêmico, de modo que não consistiria em um bom aplacador de ânimos. Eu mesmo me assustei quando a presidente mencionou o programa no seu discurso emergencial. Felizmente, a polêmica inicial parece superada.

A pergunta que o doutor faz (“Se o problema é antigo, por que não foi encaminhado há mais tempo?”) é pertinente, mas também capciosa, porque se aplica a qualquer questão emergencial e a qualquer momento. Drauzio se pergunta isto em 2013, mas poderia tê-lo perguntado em 2005 ou 1999 e a o tom de acusação sempre estaria presente. Mesmo que questão tivesse sido resolvida em 1999, é certo que ainda teríamos problemas ao mesmo tempo antigos e emergenciais no Brasil de hoje, aos quais poderíamos direcionar o mesmo questionamento.

Isto não tira o valor da pergunta. Tampouco a resposta que propõe – “a área da saúde nunca foi prioritária nos últimos governos” – é necessariamente errada. Entretanto, entregar-se rapidamente a esta resposta traz quatro problemas. Primeiro, esconde outra questão: se a saúde não foi a prioridade, o que foi? Os governos trabalharam em muita coisa durante este tempo. Desde antes de Fernando Henrique os governantes no Brasil gerenciam urgências quase intratáveis, da hiperinflação à miséria, da desigualdade à violência, das reformas institucionais à saúde. Tudo isso, e ainda mais coisas, deve ser prioridade; infelizmente, porém, quanto mais causas prioritárias há, menos prioritárias as causas são. Se a saúde parece menos prioritária é porque há bastantes concorrentes.

Segundo, quando Drauzio pergunta se o leitor “lembra de alguma medida com impacto na saúde pública adotada nos últimos anos”, urge indagar-se o que seria uma “medida de impacto”. Se for uma medida digna da memória do leitor, suponho que deva ser grandiosa e visível. Entretanto, não me surpreenderia se as pequenas mudanças, feias, entediantes e não escaláveis, fossem mais importantes que as mais pomposas. Tais avanços, por sinal, podem já estar em execução mas, por sua natureza, são menos visíveis. Estas mudanças estão sendo feitas? Não sei, mas sei que ninguém as investigou.

Este é o terceiro problema: a busca de médicos do exterior não foi a primeira medida tomada. Considere o salário dos médicos no interior, que pode ser três vezes o de um médico na capital e maior que o do prefeito! Para chegarmos a tais valores houve muitas ofertas durante anos. Outra tentativa desesperada foi tomada em Sobral, onde médicos são trazidos por aerotáxi para a cidade. Muito foi tentado antes de se apelar para os estrangeiros.

Tais ofertas, por sinal, pesam muito nas contas municipais, o que nos leva à quarta questão. Tanto a União quanto os estados e os municípios são responsáveis por alguma parte da saúde pública; identificar a responsabilidade de cada um é um desafio, assim como intermediar a comunicação entre eles. Melhorar a saúde pública passa por considerar os desafios da própria federação.

No fundo, há um problema maior que temos medo de anunciar: prover saúde pública de qualidade em um país como o Brasil não é fácil e não será rápido. Saúde pública é um dos serviços mais caros e complicados que um governo pode prover. Atendimento e remédios são caros, tratamentos são pesadamente regulamentados e há um custo alto de fiscalização. Fazer isso funcionar bem em um país continental, com regiões de difícil acesso, renda per capita baixa e grande parte do orçamento travada é algo hercúleo. Para piorar, quanto melhor for o sistema público de saúde, mais caro ele será, pois mais usuários terá. Não discordo que bons gerentes – ou mesmo estadistas – tragam mudanças positivas, mas o problema é muito maior que qualquer liderança individual.

Ademais, é bom termos certa perspectiva global. Por pior que seja, o sistema de saúde brasileiro é uma obra enorme que ajuda um tanto nas horas de desespero. Durante a maior parte da minha vida, era minha única opção e muitos familiares meus dependeram e ainda dependem do SUS. As filas são revoltantes, o atendimento nem sempre é bom (frequentemente, é péssimo) e as esperas podem ser longas; mesmo assim, penso quão desesperador seria não ter essas mínimas opções. A maior parte da população mundial, e boa parte dos brasileiros, na verdade, não as tem. É instrutivo se pôr no lugar deles.

De maneira alguma tenho mais conhecimento sobre saúde pública que Drauzio Varella, naturalmente. Ainda assim, acredito que ele foi impreciso em sua última coluna, e julgo que precisão é uma necessidade se quisermos saber quais são as causas dos problemas na saúde. Também é válido reconhecer que, por incompleto que seja, o sistema de saúde pública têm feito uma diferença relevante na vida de muitas pessoas, e seu talvez maior defeito é não conseguir tornar essa relevância mais universal. A saúde no Brasil é lastimável mas é preciso ter as ideias no lugar para sairmos desta situação.

A humildade

O lavrador pergunta ao  patriarca
de Alexandria: “Pai, o que fazer?”
Lhe responde Cirilo: “Filho, deves
praticar humidade”. Ah, coitado
do lavrador, que não pode fazê-lo!

Sobre o artigo “Democracy and Growth in Brazil”

Penei mas consegui ler o tão comentado artigo do Marcos Lisboa e da Zeina Latif. Li a versão mais extensa que estava rodando por aí, mas o Mansueto nos informou que há uma versão mais nova, revisada e mais sucinta. Não creio que tenha mudado muito, porém.

Como leigo, leio essas coisas mais para moldar um conhecimento básico que para ter opinião. Ainda assim, digo que o artigo é bom. Como introdução à cultura de rent-seeking no Brasil, é até melhor que o livro do Marcos Nobre sobre os protestos. Me pergunto se o artigo padece do mesmo problema de ser meio repetitivo para quem conhece o tema, mas acho que não é: primeiro, porque os rascunhos já estavam andando de mão em mão há algum tempo; segundo, porque o propósito do artigo é explicar a tese do nacional-desenvolvimentismo, ao contrário do livro, que a explanava embora não fosse o tema principal. Mesmo que fosse o caso, o artigo deve ser muito bem-vindo para estrangeiros, posto que escrito em inglês. Não me surpreenderia se houvesse menos referências em inglês sobre o tema, especialmente tão sucintas e claras.

Dito isto, houve uns pontos que me confundiram. Em especial, o índice Political System  que eles usam me pareceu estranho: contar o número de chefes de Estado e de partidos no poder nos últimos 13 anos é realmente uma métrica tão boa de democracia? Digo isso porque esperaria que contassem em um período mais longo, talvez, e essa métrica seria esquisita e.g. nos Estados Unidos. Esses são parâmetros universalmente usados? Provavelmente eu perdi algum aspecto do texto e estou falando besteira; se for o caso, podem me xingar muito no Twitter ou nos comentários.

As duas soluções propostas ao final – uma agência bem equipada para explicitar os custos de privilégios e a forçosa passagem de todos os benefícios pelo orçamento – são atrativas, mas precisam de um desenvolvimento político melhor. Afinal, uma solução que não pode ser implementada não é solução. Espero ver mais debates sobre essas possibilidades, eventualmente até projetos de leis, mas não vou apostar nisso por agora. Se souberem de algo, me avisem!

O legal do artigo, afinal, é o panorama histórico. Os autores foram bem claros e agradáveis de ler, e até onde senti parecem bem rigorosos. Para quem quer melhorar seu background sobre a história recente do Brasil – algo que muitos de nós ignoramos um tantinho – recomendo a leitura.

Os protestos de junho

Antes de mais nada, meus parabéns ao Movimento Passe Livre. Eu consideraria o aumento justo, e não sou, a princípio, a favor o passe livre. Ainda assim, após anos de trabalho, o MPL conseguiu impor reivindicações ao Estado e levar suas propostas do delírio adolescente à discussão nacional. A ideia do passe livre era absurda; agora, é pensável, plausível até. É um resultado excelente, ainda mais para um movimento grassroots sobre um tema que é, via de regra, considerado secundário. O momento foi crucial para seu sucesso mas o movimento agiu com competência.

Dito isto, o MPL tornou-se um detalhe, como indica sua ambivalência e a rejeição de sua pauta pelos manifestantes. O responsável pelo crescimento dos protestos foi, provavelmente, a Polícia Militar do Estado de São Paulo, ao reprimir violentamente os manifestantes. Não é novidade que a Polícia Militar é violenta, mas sua reação nesses dias foi de uma brutalidade surpreendente. Qual o propósito, por exemplo, de atacar jornalistas? A truculência tornou-se incompreensível; atacar a imprensa não foi apenas criminoso, revelou-se também estúpido, contraprodutivo até mesmo para os propósitos da polícia. Infelizmente, para tentar “mostrar seu valor”, a PM simplesmente se negou a fazer seu trabalho nos dias seguintes, permitindo que o caos tomasse as manifestações.

Como justificar um tiro de borracha em uma jornalista?

Como justificar um tiro de borracha em uma jornalista?

 

O que deveria, então, a polícia fazer? Deveria deter os vândalos que agiram nos primeiros dias, ao invés de atacar os manifestantes. Deveria também deter os vândalos dos dias seguintes, ao invés de se omitir. Que os defensores da PM tentem nos forçar uma falsa escolha entre a brutalidade e o caos apenas nos mostra sua limitação intelectual. Imagine se um cirurgião plantonista esquece um bisturi dentro de um paciente e, ante as reclamações, se recusa a trabalhar. Se este cenário é inaceitável, por que a polícia pode escolher entre trabalhar mal ou não trabalhar?

"Hey, onde vocês estão indo?" "Para a Bastilha!" "Vamos tomar a Bastilha e armar o povo!" "Não, vocês te

Por que quem defende a revolução na democracia…

Outras reações foram bem engraçadas. Muitos que viam com naturalidade dos vândalos nos primeiros dias entraram em pânico ante o crescimento dos protestos; viam neles uma “ameaça às instituições”. Só que o vandalismo dos primeiros dias também era uma ameaça às instituições. Se turbas puderam quebrar agências bancárias nossas instituições já estavam sob ataque: ali golpeava-se o Estado de direito, o direito de ir e vir, a segurança e a propriedade privada. Ali também se negava o valor da democracia: se o direito à manifestação pacífica não era suficiente, então de que ela nos serve?

...mas agora não é mais?

…esperava algo além do autoritarismo?

Se a minimização dos atos violentos dos dias iniciais foi um erro, mais absurdo foi o exagero em relação aos dias posteriores. Aparentemente, aqui povo na rua é início de golpe. Houve equívocos nas manifestações, como a presença de idealizadores da ditadura militar, skinheads (aparentemente, ao menos) e rejeição a partidos. Entretanto, exceto pelo último, estes provaram ser movimentos minoritários entre os manifestantes. Se tivéssemos, porém, de confiar nas descrições mais temporãs, acreditaríamos que no mínimo metade dos manifestantes usavam braçadeiras com o sigma e tanques já se aproximavam das sedes de governo.  Felizmente as únicas evidências do Golpe Militar eram alguns cartazes e comunidades no Facebook. Talvez devêssemos, além de vetar suas candidaturas, controlar o acesso dos militares a cartolinas e Internet?

Talvez seja injusto caçoar tanto desses prospectos: nunca presenciei um golpe no Brasil, talvez comecem assim. Entretanto, se a ideia de golpe já me parecia absurda naqueles dias e mostrou-se absurda posteriormente. Não só as Forças Armadas respeitaram a democracia como ficou claro que o manifestante não quis golpe algum, mas mudanças na democracia. Quando via essas pessoas inteligentes denunciando o Golpe Militar, o irmão socialista do Golpe Comunista, da Ditadura Gay e da Teocracia, tive a mesma sensação de ver um comunista hoje em dia. Que a velha esquerda nos parece anacrônica, já sabemos; será que podemos pôr, também, uma esquerda mais recente, moldada pela ideia do golpe, na caixa dos paradigmas ultrapassados? Não sei – mas esses dias trouxeram um indício de que a democracia é mais forte do que muitos acreditam.

Passados os protestos, não me surpreenda que tenham sido democráticos. Reconheci a ideologia que os molda: é o que me ensinaram na escola pública. Literalmente tínhamos aulas disso: nos ensinavam que “precisamos lutar por nossos direitos” (sempre indefinidos e sempre se expandindo), mas que “a corrupção é grande” e consome os recursos necessários para garantir nossas reivindicações. Entretanto, nós aprendemos também como a ditadura militar foi trágica e como a democracia, mesmo falha, é importante. O manifestante sabia que, seja como for, a democracia é melhor que um regime que lhe proibisse de ir à rua.

É compreensível que a rejeição aos partidos tenha assustado, mas foi um temor  infundado. O despropósito do medo, nós o vemos hoje, mas o que surpreendeu já naqueles dias foi a incapacidade da intelligentsia de aceitar esta rejeição. “Toda democracia moderna tem partidos”, se dizia, e é verdade. Entretanto, esta afirmação maquiava uma questão mais concreta. Toda democracia moderna tem partidos com fundo partidário e monopólio da representação, moldados por peleguismo  e corporativismo, sem identidade ideológica? Não, mas é isto que temos e foi isto que os manifestantes rejeitavam. “Sem partido” significava também “sem estes partidos”, “sem esse jeito de ser partido”. É lamentável os manifestantes partidários tenham sido agredidos, mas era previsível; não aconteceria o mesmo se desfraldassem bandeiras do PSDB em uma manifestação petista (ou vice-versa)? Foi um erro de algumas lideranças incentivar suas bases a ir à rua.

Os partidos foram banidos porque o motor de todo o movimento foi uma crise de representatividade. Se a pouca representatividade é um problema dos partidos, não se restringe a eles, porém. Um  grande número de setores que se uniu para dizer algo que não conseguiam antes. Havia ali muito da elite reacionária com seus cartazes contra Bolsa-Família e até alguns saudosos da ditadora, mas ali estavam também os movimentos sociais que lutavam contra sexismo, racismo e desigualdade – e havia algo em que concordavam.

Em espcial, havia um grupo  mal representado, tão mal representado que sequer tem nome, mas que poderia ser chamado de filhos das diaristas. Nem todos são filhos de diaristas, mas a expressão dá bem a ideia: jovens que cresceram nos anos 90 e anos 2000, filhos e netos de pessoas por vezes muito pobres que foram as principais beneficiadas pela redução de desigualdade resultante do controle da inflação e dos programas sociais. Estes jovens estudaram graças à universalização da educação: por vezes filhos de iletrados, são minimamente instruídos, muitos até em cursos superiores. Por pior que seja a educação que tiveram (e não foi necessariamente tão ruim), ela fez a enorme diferença entre não conseguir ler itinerário do ônibus e conseguir ler um post no Facebook. Eles também sabem o valor dos programas sociais bons em oposição aos assistencialistas (embora não necessariamente consigam entender os detalhes da diferença).

Eles não são representados no debate político. Seus pais são melhor representados, através da defesa de programas sociais. Felizmente, porém, o Bolsa Família não é tão necessária aos filhos; mais útil lhes seriam as duas principais reivindicações vistas nas ruas. Tampouco lhes representa, necessariamente, os movimentos de segmentos sociais, como os que combatem o racismo e o machismo. O filho da diarista não é necessariamente miserável, negro, gay ou favelado, a filha não se sente necessariamente oprimida pelo sexismo e muitos com certeza são religiosos – há uma miríade que não se encaixa nos grupos de interesse do progressismo. Note que eles não são necessariamente contra estes grupos, muito pelo contrário: havia entre os manifestantes muitos que também se sentiam representados por eles. O filho da diarista convive diariamente com amigos destes grupos organizados, os respeita e apoia. A defesa das minorias é mais regra que exceção entre eles. Entretanto, justamente por serem a nova classe média, não há grupo que represente estes jovens.

Neste sentido, o progressismo falhou com eles: focou-se tanto nos pais que se esqueceu dos filhos, focou-se tanto nas minorias que esqueceu a maioria. Tão fascinados estávamos com o avanço social (e devemos estar, mesmo: foi e ainda é um dos problemas mais urgentes do país), tão fascinados estávamos que nos acostumamos a minimizar e caçoar daqueles que reclamavam dos serviços públicos e da corrupção. É um cacoete que adquiriu-se ao responder à elite reacionária, que citavam estes problemas ao mesmo tempo em que criticavam o foco nos mais pobres, mas agora a crítica não vem só dela. Na rua, estavam o jovem do movimento negro, o jovem alimentado pelo Bolsa Família e o jovem pedindo para restringir a cidadania de quem a recebe, e todos tinham pedidos em comum.

O filho da diarista oriundo da escola pública foi apenas parte do movimento, mas me parece o perfil ideal para representá-lo porque torna os protestos inteligíveis. Ele representa a massa de pessoas que literalmente estudou na escola que é preciso protestar por direitos e que a democracia é o melhor caminho. Entretanto, ninguém haveria de se manifestar sozinho: qual o sentido de juntar cem pessoas na frente do Congresso Nacional? Há anos, ele ansiava por se manifestar, mas sem a massa crítica isto não faria sentido.

Por outro lado, os movimentos como a Primavera Árabe, o Occupy e os Indignados, embora nascidos em contextos bem diferentes, excitaram a imaginação do brasileiro. Quem quer que acessasse o Facebook veria reclamações e um clamor por manifestações populares.

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O clamor pelas ruas já existia há tempos; só não o levávamos a sério justamente por demorar para ter efeito

Se o desejo de ir pra rua crescia há tempos, e a inspiração estrangeira estimulava os ânimos, os protestos do MPL se tornaram um gatilho por uma curiosa e inesperada sequência de acontecimentos. No primeiro dia, foram muito bem-sucedidos em marcar presença; ainda assim, havia muito poucos participantes comparado com o que viria depois. Ademais, a aprovação dos protestos devia ser bem baixa na população. (Este é um ponto um tanto misterioso: manifestações do MPL já aconteciam há tempos e não juntavam tanta gente, nem ante vários aumentos. Talvez tivessem mais esperança pelo prefeito  ser petista? Talvez o achassem hipócrita por isso? Esta é uma boa questão para quem estudar os protestos.)

O mais relevante, porém, foi a brutal repressão da PM. Este também não é um fato bem explicado: que a polícia pode ser truculenta não é novidade, mas também não costuma ser tão violenta e tão desnorteada com a classe média, muito menos em eventos de alta visibilidade em áreas centrais da cidade, sem contar o ataque à imprensa. Será que resquícios da lua-de-mel que se seguiu a Tropa de Elite subiram à cabeça? Ou o “pedido de basta” da imprensa foi a causa? Esta é outra questão digna de atenção.

Se não compreendemos bem a causa, porém, a consequência da brutalidade foi clara: muito mais pessoas decidiram ir aos protestos, nem tanto para apoiar as causas do MPL, mas sim para se opor à incompetência ao lidar com os manifestantes. Deste modo, um movimento que já tinha alguma massa começou a ganhar ainda mais, de maneira espontânea. O espectador que via as manifestações em outros países e lamentava que “o povo é alienado” passou então a crer que finalmente chegara a Primavera Brasileira. Estas pessoas não tinham muitas pautas em comum – na verdade, discordam muito mais do que concordam – mas ainda assim passaram a ir às ruas junto com os outros manifestantes, enfim aplicando o que lhes fora ensinado. À medida que mais pessoas iam, mais pessoas ainda se sentiam impelidas a ir, e cada um levava sua cartolina. Enfim, tínhamos a nossa Primavera.

Sem um alvo fácil, como uma ditadura ou má economia, as demandas variaram mais que nos outros protestos ao redor do mundo. Ainda assim, duas se destacaram: melhores serviços públicos e o fim da corrupção. São pedidos naturais, posto que os serviços públicos ainda deixam muito a desejar, e há essa percepção geral de que no Brasil há muita corrupção. Eu, porém, acredito que o Brasil tem melhorado espetacularmente no que tange à corrupção e impunidade desde os anos 90. Há ainda impunidade, mas vem se reduzindo notavelmente. O abuso do poder não é mais, necessariamente, a principal causa impunidade, mas sim a justiça, lenta e opaca. Se nossa justiça fosse um pouco mais eficiente, a Lei da Ficha-limpa  não seria necessária, por exemplo. Infelizmente, os manifestantes focaram pouco no Judiciário, provavelmente por ignorância mesmo.

Os serviços públicos são um caso um tanto diferente pois, nesta área, a melhoria talvez possa ser mais veloz. Ainda assim, a qualidade de alguns serviços é resultado de uma escolha muito sábia, que foi universalizar antes de aprimorar. É o caso da educação e da saúde, casos em que se mostra a sabedoria da escolha: pessoas que, se sobrevivessem à diarreia na infância, cresceriam analfabetas hoje não morrem mais por doenças facilmente preveníveis e têm uma educação fraca mas significativa. Muito se reclama da qualidade da educação, e são reclamações válidas, mas é preciso ser justo: universalizá-la foi um ato hercúleo que fez capaz de usar a Internet pessoas que não conseguiriam, sem a universalização, ler uma placa. Parece pouco, mas foram estas pessoas que usaram o Facebook que sustentaram os protestos, foram as aulas precárias de História que as ensinaram a protestar. Alguns serviços parecem não ter melhorado porque se expandiram primeiramente – mas expandir é um avanço, logo os serviços melhoraram, sim.

No geral, as propostas que ecoaram nas ruas foram ruins. Um bom exemplo é a reserva de fração do PIB para educação e saúde. O problema de reservar um valor antecipadamente é que, se o valor for pouco, não pagará as contas, e se for muito, haverá desperdício. Alguém realmente acredita que um número redondinho como “10%” é exatamente o que é preciso para melhorar educação ou saúde? O problema talvez esteja mais na má gestão do que na falta de recursos. A melhoria da qualidade levará um aumento de custo considerável pois muitas pessoas que optam pelo serviço privado migrariam para o público, mas a melhoria em si não depende um valor reservado.

Muito mais se pode criticar sobre os pedidos das ruas, mas a crítica mais comum talvez seja a mais simples: são pedidos corretos demais. Afinal, quem não pediria melhores serviços e menos corrupção? Ser contra a corrupção é quase tão inócuo quanto ser contra o Mal; ser a favor de melhores serviços é quase tão inerte quanto ser a favor do Bem. Ainda assim, estas são demandas válidas. Se hoje o Egito é um caos, há um ano atrás as multidões foram às ruas pedir a queda de um ditador. Oras, quem é contra a queda de ditadores? Seria justo dizer que pediam uma platitude? Certamente não – e o mesmo pode ser dito do que pediram as ruas aqui no Brasil.

Que no Brasil os poderosos acostumaram-se à impunidade é um fato tão conhecido quanto lamentável; que os serviços são péssimos também é fato notório. Infelizmente, porém, nosso ato reflexo era ver nessa denúncia um ato retrógrado. Por isso as Duas Semanas de 2013 foram tão importantes: falaram alto o que estávamos nos acostumando a esquecer. É importante que gritem o óbvio quando nossas análises, mesmo que corretas, o escondem de nós. Se alguém nos diz – uma, duas, três vezes – que dois mais dois são quatro, nos diz uma obviedade; se nos diz pela quarta vez, porém, talvez nós devamos rever nossos cálculos.

Em resumo, se as propostas de como fazer vindas dos manifestantes não são boas, mais importante são as reivindicações sobre o que fazer. Mesmo com todos os avanços, é preciso retornar ao problema da corrupção e dos maus serviços. Já avançamos muito no combate à corrupção, na expansão dos serviços públicos e até em sua qualidade, em certos aspectos, mas a mensagem das ruas é que isto precisa avançar mais rápido. Para os que entendem um mínimo de política e economia, tão acostumados a olhar o povo de cima, a tarefa é propor como fazer isso. Não importa que as opções apresentadas pelas ruas sejam ruins; foram os primeiros rascunhos de possíveis soluções. As outras propostas devem ser defendidas, argumentadas ante e para o grande público. Se algo ficou claro, é que o povo pode e quer participar da política. Se discordamos do que, em massa, os brasileiros querem, tentemos convencê-los de nossas posições.

Não será fácil. Muitos dos avanços implicarão em sacrifícios que não queremos fazer. Persevera a ideia, falsa, de que, eliminando a corrupção e cortando gastos, teremos recursos suficientes. A solução, porém, passa pelo debate mais amplo. É preciso que as boas ideias sejam mais inteligíveis. Não é possível nem necessário escrever um só artigo que convença a todos, mas sim que se desmonte este clube fechado dos que discutem economia e política. É um trabalho de anos; agora, o importante é começar.

Utopia

Quando disse que o problema do Fora do Eixo era a utopia, o Manoel Galdino conjecturou-me vítima de uma possível utopiafobia. Será que, onde eu via utopia, logo depois via um problema?

A conjectura do Manoel é injusta. No caso do Fora do Eixo, primeiramente vi o problema – apenas por alto, confesso – das discussões sobre o financiamento do ~coletivo~, as supostas explorações de seus membros etc. Só depois o liguei à utopia. Ademais, não sou “contra utopias”. Pelo contrário, admiro muito quem se entranha em uma delas. O utopista praticante supera a ideologia bocó do “seja realista, peça o impossível” em favor do “sou realista, faço o impossível”, que é muito mais interessante. Ele é assertivo, se põe como um agente, não como um sujeito cujo direito alguém tem de lhe dar. É corajoso, porque se põe a criar o que sequer pode ser.

Só que a impossibilidade da utopia é um problema em si. Quase todas estão fadadas a não se realizar; nas que se realizarem, não se reconhecerá a ideia original. No pior cenário, os utopistas sequer sabem disto: olham para o que existe com um desdém jacobino, gritam que jogarão tudo fora e farão o novo, o perfeito. Foi isto que, me parece, aconteceu com o Fora do Eixo.

Uma moça reclamou que trabalhava de graça. Mas o que ela esperava quando se dispôs a participar de um projeto “desmonetizado”? Que fosse ser livre da ~lógica do capital~, exceto quanto a receber salário? Esta moça acusou uma mulher do projeto de explorá-la, mandando-lhe que trabalhasse exaustivamente. Se for verdade, por que faltou a esta mulher o bom senso de tratar bem uma voluntária? Provavelmente ela tem, em sua cabeça, um ideal do projeto que justifica até agir de tal maneira. Para ambas, a utopia, realizada, é uma coisa muito feia. Isto ficou mais claro quando o projeto foi escrutinado no Roda Viva: a ilusão do ideal dissolveu-se em público.

Já passei por isso também. Só meus colegas sabem que projetos gerimos, e os resultados lamentáveis que se sucederam. Para mim, foi uma excelente aprendizagem. Mais ainda valem as utopias que deram certo e se corromperam. Penso, por exemplo, no governo Lula, que começou com grandes esperanças. Terminou bem diferente do que imaginávamos; se muito, uns 10% do que se esperava foi alcançado. Ainda assim, valeu a pena. Outro exemplo é a Wikipédia. Impossível ela não é, mas o que não faltam são experiências ruins nela; ainda assim, é uma das melhores coisas que já fizeram na Internet. Tentaram o impossível, conseguiram bastante mas perdeu-se a inocência.

Há muito disso no Fora do Eixo. Não os conheço, mas o Mídia NINJA foi uma coisa surpreendentemente relevante e construtiva. (Que alguns tolamente vejam nele o substituto do jornalismo é um problema dos tolos, não do projeto.) Aparentemente, o Fora do Eixo também produziu muito conteúdo cultural, apoiou bandas, organizou espetáculos, gerou debate. Se há membros que hoje estão insatisfeitos, é porque não lhes satisfaz o que foi possível fazer.

Com o tempo, porém, temos de superar essa antipatia com o possível, né? Não podemos nos entregar tão facilmente aos ideais para sempre, é preciso tornar-se criterioso com meus projetos. Mais importante ainda, é indispensável aprender a respeitar, e até a admirar, as coisas que são imperfeitas. Meus amigos me perguntavam por que não votaria na Marina Silva; eu poderia responder que não troco mais utopias por realidades imperfeitas mas mais evoluídas.

A utopia é uma necessidade. É pela utopia que aparece o novo. Entretanto, o fascínio com estes ideais platônicos é somente uma fase de nossa evolução. Depois de pedirmos o impossível, e de tentarmos fazê-lo, aprendemos a ver a beleza e a vastidão das possibilidades, a trabalhar com elas. Afinal, uma utopia bem-sucedida torna-se tão sem graça quanto uma coisa que existe.

Uma seleção de hinos nacionais

Realmente, o hino da União Soviética é espetacular. A estética de vários estados totalitários é linda, em geral, por pior que sejam os crimes.

Outras surpresas agradáveis foram o hino de Israel, da China e da África do Sul. Por outro lado, outros hinos, como o inglês, o francês e especialmente o americano, são bonitos, mas perderam parte do impacto devido à repetição.

Pequeno comentário sobre uma confusão engraçada

Chegou a mim um texto dizendo que a Intelligent Life elegeu o português brasileiro como melhor língua para se aprender (se você já sabe inglês, claro).

Já achei estranho dizer que a Intelligent Life, que é do grupo The Economist, é americana; ela era britânica, não? (E o nome da revista é só Intelligent Life, não? Creio que o “more” só existe no site…)

Entretanto, há uma bola fora maior. Nessa edição, várias pessoas defenderam qual segundo idioma aprender. Também tem artigos falando bem de espanhol, mandarim e árabe, além de um texto apresentando a questão. Assim, a revista não elegeu o português, mas sim um dos autores…

O artigo defendendo o português é esse, e a edição é essa. Já fez até aniversário, por sinal!

Agora, quer ver uma coisa engraçada: vá lá no artigo que se confundiu e leia os comentários. Sei que essa é uma área em que não é bom se aventurar, mas garanto que esses valem a pena.

Sobre Marco Feliciano e a “maldição sobre a África”

Com razão, os comentários do deputado Marco Feliciano sobre “africanos” têm gerado grande revolta. Ainda assim, muitas pessoas têm se perguntado: como é possível que um homem claramente descendente de negros faça comentários racistas? A resposta mais comum têm sido que ele nega sua ascendência – o que seria facilmente perceptível por sua peculiar escovinha, parte de um suposto passing. Entretanto, há uma resposta mais precisa e interessante. Poucos a cogitaram porque demanda compreender um pouco mais como funciona a ideologia pentecostal, então tentarei apresentá-la.

Quando se fala do racismo de Marco Feliciano, geralmente o interlocutor está pensando em termos bem diferentes dos do deputado. O racismo que se imagina é mais semelhante ao preconceito explícito do Sul dos Estados Unidos há algumas décadas – não por acaso,  o que aparenta ser o modelo-padrão para estudo acadêmico sobre racismo. Nesta ideia, a diferença entre as raças é essencial: a pessoa negra foi feita diferente, com vários atributos inescapáveis (geralmente, negativos) e isso não pode ser mudado.

A ideia do deputado Feliciano – e, por extensão, de muitos pentecostais – é sutil mas marcantemente diferente. A “maldição sobre a África” não é uma propriedade essencial dos “africanos”. Antes, é mais uma consequência contingente de um ato de alguém no passado remoto. Na prática, é um detalhe facilmente alterável. E como se altera? Pela conversão, pois “nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus”. Isto vale não só para os “africanos”, mas para qualquer pessoa sobre quem incida uma “maldição”, aliás. “Maldições” tornam-se apenas detalhes pontuais, tão fáceis de se remover quanto uma verruga no dedo. Na verdade, todos estaríamos sob uma maldição muito mais grave, oriunda do pecado original – mas também tão facilmente resolvível quanto qualquer outra.

Entretanto, que diferença isso faz? É uma afirmação tão ignorante e racista quanto a anterior, poder-se-ia dizer.

Pois bem, se seu parâmetro de avaliação é a ignorância, então realmente não faz muita diferença. A posição do Feliciano é, talvez, até mais desinformada que o racismo racialista dos confederados. Do mesmo modo, esta é certamente uma posição racista – uma conclusão pouco interessante, porém, dada a amplitude quase amorfa que o termo “racismo” adquiriu.

O interessante está nas consequências da ideologia destes pentecostais. Se estas ideias sobre maldição demandam algum comportamento diferente, é o ato de priorizar a ajuda aos “africanos” – e, consequentemente, um grande subconjunto dos negros – porque eles precisariam muito mais de ajuda. Não que isto ocorra – acredito que não exista profiling racial significativo na evangelização pentecostal, nem contra nem a favor de pessoas negras – mas seria a única conclusão possível.

Na prática, esta “teoria da maldição” fornece um ferramental para explicar alguns fatos sobre a situação do negro da sociedade sem pôr o peso por esses fatos na pessoa negra. Pode até ser que a maior parte da população carcerária seja negra, ou que a África subsaariana seja uma região cheia de problemas, mas isto é consequência da “maldição”, não da essência do “africano”, que pode e deve ser ajudado por seus irmãos pentecostais tanto quanto qualquer outro “povo”.

Assim, fica claro por que Marco Feliciano não vê contradição entre ter cabelo crespo e falar sobre a “maldição sobre a África”. Outras reflexões são possíveis sobre o tema, mas não faz sentido tentar fazê-las sem levar em conta o que o pastor quis dizer nem compensa pôr  palavras em sua boca, como se ele já não houvesse emitido asneiras o suficiente.

Compartilha-se uma foto de Feliciano com sua mãe e seu padrasto, que é negro, frequentemente seguida por comentários sobre o “conflito familiar”. Afora a maior omissão destes comentários – a satisfação do padrasto, tornado mero objeto do discurso, perto do enteado – percebe-se claramente que o deputado não demonstra ódio algum a ele (e a sua mãe) mas antes parece bastante afetuoso. Como pode, um homem que odeia negros, agir assim? Pode-se fazer uma longa lista de argumentos intricados, mas acredito que o que escrevi acima pode dar uma luz mais convincente a este comportamento.

Qualquer dia, vá a uma igreja pentecostal, preferencialmente em uma região mais pobre ou periférica. Note como há muitas pessoas negras participando alegra e vivamente do culto. Haverá vários sacerdotes negros guiando o culto. Eu fui evangélico até os doze anos, e uns três quartos da liderança da igreja que eu frequentava era inequivocamente negra. Tenho parentes que vão lá e, por isso, eventualmente, passo pela igreja – se algo mudou, é que há ainda mais pessoas de pele ainda mais escura em posições ainda mais altas.

A curiosa verdade é que há poucos lugares no Brasil tão cegos à cor da pele, tão abertos à pessoa negra, quanto uma igreja pentecostal. Não que não haja racismo na pessoa pentecostal – por definirmos o racismo como algo que impregna tudo, inexoravelmente, encontraremos atitudes racistas, especialmente fora do círculo da igreja. Entretanto, se a ideologia pentecostal, com toda sua ignorância e fundamentalismo, tem alguma influência nos relacionamentos raciais de seus fiéis, é para reduzir o preconceito e abrir portas na hierarquia clerical.

Não estou propondo que paremos de criticar Feliciano e seus seguidores. De maneira alguma! Sua crença ainda é ignorante no final das contas, e suas posições sobre homossexualismo são bem menos benignas. Acredito que a maneira como resolveram se opor a Feliciano é inadequada e até perigosa, mas se opor a ele é uma necessidade.

Meu ponto é outro: há uma crítica que é, no mínimo, ignorante e, no máximo, injusta. É compreensível que a façam, posto que poucos da intelligentsia conhecem como uma igreja pentecostal pensa e funciona. Ademais, a reflexão sobre o racismo entre alguns de nós é pouco sutil, até viciada, e nos acostumamos a respostas impulsivas, automáticas. Por mais que Marco Feliciano, não só na CDH, mas até como deputado, seja um erro, gostaria que nós incidíssemos em menos erros ao criticá-lo. No mínimo, por honestidade intelectual, mas também porque há milhões de fiéis com quem temos de conversar, mas que não debaterão conosco se distorcermos suas crenças.

Dois pontos sobre Margaret Thatcher.

Cartaz do filme

Quando lançaram  The Iron Lady, um senhor bem respeitado nos círculos progressistas mandou no Twitter, sobre o governo de Margaret Thatcher, que “não foi para isso que fizemos o feminismo“. Não vamos persegui-lo por isso, foi um faux pas isolado em um histórico positivo. Entretanto, só por alguém ter dito esta frase a Mrs. T deveria ser considerada a maior feminista da história – mesmo se não for.

Eis aí em Thatcher algo que falta ao feminismo que me chega pelo computador. Não façam o que quer que seja pelas mulheres apenas; façam algo porque vocês, como indivíduos (que são incidentalmente mulheres) acham que deve ser feito. Enfim, apenas faça.

Aliás, lembram daquele artigo da Anne-Marie Slaughter? Ele pode ser elogiado e criticado em vários aspectos, e não quero entrar em tantos méritos. Entretanto, fiquei estupefato ao ver uma mulher, tão bem de vida que manda os filhos para a China aprender mandarim, dizer que a melhor maneira de ajudar mães solteiras e funcionárias do WalMart é pôr mais das amiguinhas delas nos cargos que elas sonham. Me fez admirar mais a Dama de Ferro automaticamente.


Eu admiro Margaret Thatcher por sua coragem, ousadia, talento e braveza. Além disso, parece que suas reformas, somando tudo, conseguiram ao menos ressuscitar e fortalecer a economia do Reino Unido. Ainda assim, a lista de coisas nefastas que ela fez em política externa é de horrorizar qualquer pessoa de boa índole.

Não vou listar seus crimes pois certamente já listaram muitos a vocês. Entretanto, me espante que aquele que mais me choca raramente é mencionado – seu apoio ao Khmer Vermelho quando o Vietnã invadiu e começou a reconstruir o Camboja. O artigo sobre a República Popular da Kampuchea na Wikipédia anglófona toca nesse ponto, mas ele todo é uma leitura muito interessante.

 

O cangaço era da Pérsia para o Oriente

O Romance de Alexandre oferece um exemplo ainda mais complexo e impressionante, pois desde os séculos III e IV a incomparável envergadura do herói suscita relatos que o conduzirão não só à Índia, de onde ele escreve a seus preceptor, Aristóteles, mas também ao fundo do mar, ao outro mundo, ao céu. Forma-se assim uma tradição de excepcional riqueza, cuja elaboração, de resto, continua tanto em Bizâncio quanto em outros lugares durante toda a Idade Média.

— Éveline Patlagean, História da Vida Privada, volume 1, artigo Bizâncio, séculos X-IX

Resumo da ópera: Alexandre o Grande era o Lampião do Império Bizantino.